sexta-feira, 13 de abril de 2012

QUE FIM?

O destino mascarado de desejo
Que fim?
O meu corpo flutua por cima da minha imaginação
Que loucura?
Cansaço
Os meus pés pesam toneladas
O meu espírito pisado pela minha consciência
Mal consigo falar
Atiro-me para a frente
Atropela-me a memória de um dia triste
Todos se riem de mim ou não sou ninguém?
Que razão têm as minhas lágrimas?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

COINCIDÊNCIAS COINCIDENTES

O António Antunes e o Fernando Fernandes eram amigos: cada um dos seus:
eles não se conheciam. Tinham em comum o gosto pelo mergulho, mas nem um
nem outro alguma vez experimentou mergulhar; gostavam de gostar – achavam
graça. O António Antunes esteve quase para saltar de pára-quedas, ainda se
inscreveu num curso, mas desistiu – viu-se aflito para recuperar o dinheiro
da inscrição, mas lá conseguiu. O Fernando Fernandes que nem pensar, que
tinha medo das alturas. Eram dois homens extraordinariamente comuns e nada
os relaciona, apenas que ambos gostavam de gostar de mergulho e que ambos
morreram – grande coisa – , tendo sido enterrados lado a lado no cemitério
dos Prazeres.

terça-feira, 3 de abril de 2012

DESEJO

Desejo que a lua me dispa e que o sol me emprenhe

Desejo perder-me e achar-me no cúmulo do amor

Desejo abraçar o mundo e cruzar cada rio e cada mar

Desejo viajar pelo teu sonho e beijar-te ao acordar

Desejo sentir cada verdade como uma carícia

Desejo saborear o gosto

líquido da tua pele

Desejo viver o dia como se a noite me amasse

Desejo ouvir o canto do pássaro da minha imaginação

Desejo guardar o beijo desenhado pelo sorriso da criança

Desejo multiplicar a vida em pequenas flores e vê-las cresce

sexta-feira, 30 de março de 2012

SOU SÓ

Sou um peixe sem cardume

Um feixe de luz perdido no ar

Sou uma serpente sem princípio nem fim

Uma pétala não

Uma gota do suor de um deus qualquer

Sou um cão velho sem família

Sou a pedra descalcetada

O perdão tarda

Não quero ser quem sou

Não quero ter sido o que fui

Nada pode resolver esta amargura

Nem a vida

Nem a morte

Um filho de abutre comeu o corpo do meu desejo

Os restos mortais da minha vontade

Vejo-o do cimo da minha inércia

O caminho chama-me

E eu fico a lançar pedras no charco da minha indiferença

Não quero saber quem sou

Nem que vida me resta

Não quero viver esta paródia infeliz

Não quero saber como acaba

Nem se a dor sobrevive

quarta-feira, 28 de março de 2012

SEMENTE

ah uma semente na rocha fria da minha imaginação
que futuro poderá ter este desejo afogado em cinzas?
penso que penso na vida que me leva descontente
e sorrio extenuada de chorar por dentro do desalento
sorrio e semeio esse sorriso na rocha fria da minha alma
aqueço uma mão na outra e sento-me no chão da esperança
há quem diga que mais vale esperar do que deixar a vontade cair
há quem diga a cantar que mais vale acreditar

segunda-feira, 26 de março de 2012

CANSA-ME TANTA VIDA

Traduzir palavras para sorrisos

Ser livre apesar de tantos dentes que me agarram

É dor ou é sombra de verão?

E se eu ficasse estendida no tempo a alourar palavras?

Inventei-me uma tristeza para me divertir ou sou humana?

Cresço em vontade ou não posso ver sem querer?

Que mundo emolduro?

segunda-feira, 19 de março de 2012

VALES

Agarra a ponta da corda com a ponta dos lábios. Empresta ternura à tua luta contra essa força que teima em fazer-te beijar o chão. Baixa-te, finge que desistes, dança com o teu medo. Distrai essa angústia que te aperta o peito. Tu vales mais do que essa lágrima que te empurra de encontro ao vazio. És mais que essa tristeza que tenta preencher o teu ser.